quinta-feira, 19 de junho de 2014

Anatel aprova norma para reduzir preços entre operadoras de celular

A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) aprovou nesta quinta-feira (18) uma proposta para reduzir os valores das ligações de celulares entre operadoras diferentes. Até 2019, o Valor de Remuneração de Uso de Rede da telefonia móvel (VU-M) deverá ser reduzido em mais de 90%, passando dos atuais R$ 0,23 para R$ 0,02 . O VU-M é o valor que as operadoras de celular pagam para usar a rede de outras empresas.


  


















“Esta redução de preços de interconexão deverá se refletir nos preços dos serviços de telefonia ofertados pelas empresas ao consumidor, pois haverá aumento da competição no setor”, diz a agência. De acordo com a norma aprovada hoje, os valores dessas tarifas estarão referenciados aos custos e serão reduzidos gradativamente até o nível de custo eficiente de longo prazo

Com a medida, a Anatel espera que os preços das ligações entre operadoras diferentes fiquem mais próximos dos preços cobrados para chamadas entre usuários da mesma empresa. Assim, o consumidor não precisará de vários aparelhos celulares ou vários chips em um mesmo celular para realizar chamadas para outras operadoras.

As reduções nos valores de interconexão também deverão impactar o preço das chamadas fixo-móvel, que deverão ter uma redução substancial, segundo a Agência.

Para aprovar a norma, o conselho diretor da Anatel analisou os impactos das reduções de VU-M já implementadas em 2012 e 2013, que não geraram resultados negativos para o setor nem redução de investimentos ou lucros das empresas.

Fonte: Agência Brasil

Paulo Moreira Leite e a Copa: Profetas do caos perdem mais uma

A Copa do Mundo não completou uma semana e já é possível perceber um novo fiasco hlstórico dos profetas do caos. Os aeroportos não ficaram um inferno nem os vôos atrasaram – na média, o número de atrasos e cancelamentos é um dos melhores do mundo.

Por Paulo Moreira Leite, na IstoÉ


Torcedores na Fan Fest de Recife, durante a partida entre Brasil e México


















Os estádios estão aí, alegrando visitantes e torcedores. Os números de gols mostram matematicamente que esta pode ser uma das melhores Copas de todos os tempos.
O transito não está melhor nem pior.
Os problemas reais do Brasil seguem do mesmo tamanho e aguardam solução.
Não custa lembrar, também, que nenhum país está livre de um acidente horrível nos próximos 15 minutos.
Mesmo assim, o clima do país mudou. Já consegue viver uma experiência que se anunciava como tragédia: hospedar uma Copa do Mundo.
O desagradável é que essa situação podia ser percebida em fevereiro.
Foi então que, em companhia do repórter Claudio Dantas Sequeira, entrevistei Aldo Rebelo para a IstoÉ. Perguntamos ao ministro sobre a ameaça de caos que todos associavam a Copa.
Aldo respondeu: “A experiência mostra que em eventos desse porte há, em primeiro lugar, uma grande permuta entre viajantes e passageiros. Muita gente está chegando à cidade-sede, mas muita gente está saindo. As empresas de evento não fazem feiras nem seminários nessa época. O passageiro tradicional, que visita parente, que viaja a negócios, para ir a um museu, também não viaja.”
Antecipando uma situação que hoje se verifica em voos com menos passageiros do que se anunciava, o ministro disse: “Em Londres, durante a Olimpíada, havia menos gente na cidade durante os jogos olímpicos do que em dias normais. “
Aldo prosseguiu: “Quem não gostava de esporte não foi para Londres naquele período, mas para Budapeste, para Praga, para Madri. Já sabemos que algumas cidades brasileiras terão menos visitantes do que em outras épocas do ano. No Rio de Janeiro, não haverá o mesmo número de visitantes que a cidade recebe durante o Carnaval. Em Salvador também não.”
Em maio, em entrevista ao TV Brasil, Aldo Rebelo apresentou argumentos semelhantes. Mostrou a falácia em torno dos gastos excessivos com a Copa. Fez comparações didáticas. É um depoimento esclarecedor, que você pode ler aqui.
O espantoso é reparar que muitas pessoas trataram estes depoimentos – e outros que tinham o mesmo conteúdo – como exemplo de jornalismo sem valor, chapa-branca. A A realidade – em poucas semanas – encarregou-se de mostrar seu caráter informativo e, com perdão do autoelogio, esclarecedor.
Nelson Rodrigues diagnosticou um mal cultural do brasileiro, o complexo de vira-lata. É certo que este olhar autodepreciativo contribui para embaçar uma visão mais realista da realidade. Ainda mais quando há um interesse, nem sempre oculto, a partir de forças nem um pouco ocultas, como você sabe, de criar um ambiente de medo, desconfiança e derrota.
Mas ouso sugerir uma segunda abordagem à doença, talvez mais atual. Após anos sem tratamento adequado, sem remédios e sem terapia, os sintomas iniciais de subraça se desenvolveram e tomaram conta dos pacientes.
Eles adquiriram uma nova personalidade. Deixaram de temer as próprias fraquezas. Estão convencidos de que condição inferior é sua verdadeira natureza – o que talvez explique a cafajestada, abaixo de qualquer diagnóstico médico, na Arena Corinthiana, tratada com muita naturalidade até que a reação de homens e mulheres comprometidos com valores democráticos.

Não é difícil entender por que, até agora, não conseguem enxergar o que se passa na Copa.

Fonte: Istoé


Paulo Abrão: Combate à exploração sexual depende de mudança cultural

O combate à exploração sexual de crianças e adolescentes e ao trabalho escravo depende de uma mudança cultural. A avaliação foi feita nesta quarta-feira (18) pelo Secretário Nacional de Justiça, Paulo Abrão. Durante ação contra o tráfico de pessoas, na Igreja da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro, ele disse que o machismo e o preconceito contra jovens gays atrapalha o combate desses crimes.


Cartaz na entrada da Igreja da Penha pede paz. (Foto: Carolina Iskandarian/ G1)Cartaz na entrada da Igreja da Penha pede paz. (Foto: Carolina Iskandarian/ G1)


















“O tráfico de pessoas é um fenômeno que lida com questões bastante complexas. Por isso, as questões culturais são difíceis de lidar. Em primeiro lugar, uma cultura machista, que estabelece a mulher como objeto, que é muito presente no país e que favorece à mercantilização da vida”, afirmou. Outro problema, segundo ele, é a discriminação por orientação sexual.

“Muitos meninos têm que sair de casa porque não têm acolhimento de seus próprios pais em razão de sua escolha sexual. Eles saem de casa, abandonados, sem condições econômicas e, por vezes, se tornam mais frágeis para esse aliciamento das redes do tráfico”, acrescentou. Abrão disse ainda que a permanência ilegal de estrangeiros o deixa vulneráveis ao aliciamento.

Para alertar sobre falsas promessas de aliciadores, os organizadores da campanha instalaram uma caixa, batizada de Gift Box, em frente a Igreja da Penha. A caixa, de grande proporções, remete à ideia de presente. Porém, dentro do embrulho gigante, estão histórias de crianças traficadas para exploração sexual e para o trabalho escravo na construção civil ou em clubes de futebol.

O coordenador da campanha e do Núcleo de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas do governo do Rio, Ebenezer de Oliveira, lembrou que a desapropriação de imóveis rurais e urbanos identificados com trabalhadores escravos foi aprovada pelo Congresso Nacional. Agora, os imóveis poderão ser desapropriados para a reforma agrária ou para construção de casas populares.

O estado do Rio de Janeiro está na quinta colocação no ranking de trabalhadores em condições de escravidão libertados entre todas as unidades da federação. Segundo Oliveira, a maioria das vítimas é encontrada em áreas rurais, principalmente no norte fluminense, na exploração agrícola, como nos canaviais, ou na construção civil, na cidade do Rio. “Em 2013, tivemos cerca de 110 casos de tráfico de pessoas. Quase que a maioria na construção civil e no comércio”, revelou.

Oliveira disse que as vítimas atraídas pelo tráfico de pessoas são enganadas com ofertas de melhores condições de vida. “Tem a baixa escolaridade, a falta de emprego, o pouco acesso a direitos, que fazem com que a pessoa procure migrar para conquistar o trabalho”, explicou. Depois, acabam tendo documentos retidos, contraem uma dívida ilegal com o empregador para pagar pelos custos da viagem e terminam submetidas a condições degradantes de trabalho”, citou.

Fonte: Agência Brasil


Combustível no Brasil é um dos mais baratos do mundo

Um levantamento realizado pela empresa de consultoria e contabilidade UHY mostrou que o Brasil tem um dos menores preços de combustível do mundo. O estudo apontou que, embora os impostos sobre combustíveis sejam altos no Brasil, o custo real é relativamente menor que em outros países de economias mais desenvolvidas.


Posto PetrobrasPosto Petrobras


















A UHY Moreira levou em consideração para a pesquisa uma van Ford Transit. Para abastecê-la com gasolina no Brasil, o preço médio foi de US$ 102,73 (cerca de R$ 232), quase a metade do custo na Dinamarca.

Os gastos com diesel também foram abordados na pesquisa. No Brasil, a conta no posto foi de US$ 89,60 (cerca de R$ 202) - menos de metade do custo no Reino Unido, onde o diesel é mais caro.

Ainda de acordo com a pesquisa, Reino Unido, França e Alemanha cobram impostos de pelo menos 60% sobre a gasolina e entre 40% e 60% sobre o diesel.

Para a UHY Moreira, a explicação para os baixos preços são o grande volume de petróleo produzido no Brasil e o fato de economias emergentes registrarem níveis consideravelmente mais baixos de tributação sobre o combustível do que as economias desenvolvidas.

Fonte: Portal Terra


MEC: Educação infantil receberá novos recursos financeiros

nstituições educacionais de ensino infantil de diversas cidades do País receberão recursos financeiros para a manutenção de novas matrículas e abertura de novas turmas. Por meio de portaria publicada no Diário Oficial da União desta quarta-feira (18), o Ministério da Educação (MEC) autorizou o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) a realizar a transferência.


 MEC: Educação infantil receberá novos recursos financeiros MEC: Educação infantil receberá novos recursos financeiros


















O repasse está autorizado para estabelecimentos educacionais públicos ou em instituições comunitárias, confessionais ou filantrópicas sem fins lucrativos conveniadas com o poder público que tenham cadastradas novas matrículas em novas turmas. Também é necessário que ainda não tenham sido contempladas com recursos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb).

A cidade de Tauá (CE) foi uma das beneficiadas. A instituição declarou 543 novas matriculas para a creche e 626 para pré-escola e receberá um investimento de R$ 148 mil.

A instituição pública de Ubá (MG) também receberá o recurso, somando mais de R$ 140 mil. Ela declarou 776 novas matrículas para a creche e 208 para pré-escola.

Creches
Outra portaria do MEC publicada nesta quarta-feira no Diário Oficial da União autorizou ainda a transferência de recurso financeiro suplementar para a manutenção e o desenvolvimento da educação infantil para atender crianças de zero a 48 meses, matriculadas em creches públicas ou conveniadas com o poder público.

Só São Luís (MA) receberá R$ 5,2 milhões para atender as 5.214 crianças que estudam nas creches da cidade. São Gonçalo (RJ) receberá R$ 1,6 milhão, e Botucatu (SP), R$ 1,1 milhão.

O estado da Bahia teve 10 cidades aptas a receberem o recurso suplementar. São elas: Acajutiba, Alagoinhas, Barra do Rocha, Brumado, Cabaceiras do Paraguaçu, Caém, Filadélfia, Rio do Pires, São Felipe, Uruçuca.

Fonte: Portal Brasil

domingo, 15 de junho de 2014

Pepe Escobar: “Geopolítica da Copa do Mundo”

Numa das imagens que, até aqui, definem a Copa do Mundo, vê-se a Mannschaft alemã – a seleção alemã de futebol – confraternizando com índios pataxó, a poucas centenas de metros de distância de onde o Brasil foi “descoberto”, em 1500. Praticamente, um redescobrimento dos trópicos exóticos.

Por Pepe Escobar, no Asia Times Online


Seleção alemã confraterniza com índios Pataxó na Bahia

















E há também a Seleção Inglesa, deitando e rolando à beira-mar, numa base militar, com o Pão de Açúcar como deslumbrante pano de fundo, sob uma parafernália de equipamentos e respectivo especialista científico em umidade e ventiladores industriais (afinal, haverá o “Duelo na Selva” contra a Itália, no próximo sábado, “nas profundezas da Floresta Tropical Amazônica”, como dizem tabloides britânicos).

A Copa do Mundo – o maior espetáculo da Terra – começa no momento em que uma incansável campanha de propaganda de demonização contra-China e contra-Rússia, inventada no Ocidente (estados-fregueses incluídos), fez subir ao topo os níveis de histeria universal.

Significa que o Brics estão no olho do alvo; no caso do Brasil, é a potência emergente localizada estrategicamente sobre a parte mais rica da Floresta Tropical Amazônica, em tempos em que uma integração progressista da América Latina ousou reduzir a papel higiênico (Marca Registrada) a Doutrina Monroe.

Nos anos recentes, o Brasil tirou pelo menos 30 milhões de pessoas, da miséria. A China investe em atenção pública à saúde e à educação. A Rússia recusa-se a se deixar abusar, como nos anos de Ieltsin, o bebum. Nos anos recentes, a Copa do Mundo tem sido assunto, sempre, de países BRICS: África do Sul em 2010, Brasil agora, e Rússia em 2018. Qatar em 2022 – como acontece sempre – parece mais um programa de chantagem movido a petrodólares do Golfo, que saiu pela culatra.

É interessante verificar como a City de Londres – que ama o dinheiro russo, anseia por investimentos chineses e tem uma quedinha pelo poder soft do Brasil – está analisando o quadro. Com um toque de humor britânico, poderiam facilmente interpretar o Duelo na Selva, como a OTAN combatendo na muito ambicionada floresta tropical (pensem nas guerras da água que virão em futuro próximo).

E então, apenas dois dias depois de iniciada a Copa do Mundo, a Bolívia, vizinha do Brasil, estará hospedando nada menos que uma reunião de cúpula do G-77+China – de fato, é reunião das 133 nações-membro da ONU, a coisa toda lá presidida pelo presidente Evo Morales, da Bolívia, que é uma espécie de primo andino distante dos Pataxós que tanto fascinaram os alemães.

Trata-se, pode-se dizer, de uma reunião da Alba (Aliança/Alternativa Bolivariana para as Américas e que inclui Cuba) e do Brics (só a Rússia não estará presente). Os excepcionalistas norte-americanos estão furiosos, porque o Brics estão conduzindo a transição na direção de um mundo multipolar – que já existe no futebol (pense em Espanha, Alemanha, Itália, de um lado; e Brasil, Argentina e Uruguai, do outro).

E tem a ver também com promover o futebol, com uma espécie de contragolpe Sul-Sul à hegemonia do norte industrializado. Brasil, China e Rússia, com suas diferentes estratégias, todos apostam em mais integração sul-sul – do Banco do Sul, ao banco de desenvolvimento do Brics, em constituição (há reunião de cúpula do Brics, crucialmente importante, mês que vem, em Fortaleza), na via para um sistema mais igualitário que, idealmente, poderia ser financiado por uma porcentagem da dívida externa, uma porcentagem dos gastos militares e um imposto global sobre transações financeiras especulativas.

E sempre vale a pena recordar que o G77 é sobre descolonização; nada de Império de Bases; nada de interferência pelo complexo orwelliano/Panopticon da Agência de Segurança Nacional dos EUA no Sul Global.

Agora comparem tudo isso com a Copa do Mundo Adidas; Coca-Cola; Hyundai; Kia Motors; Emirates; Sony; Visa; Anheuser-Busch InBev (Budweiser); Castrol; Continental; Johnson & Johnson; McDonald's; Itaú; Fifa, festa e entretenimento de 2014-Brasil, que a bíblia da indústria, Advertising Age apresentou como “um Super Bowl todos os dias, o mês inteiro”.

Em firme oposição, há uma coorte de movimentos Sul-Sul sociais/de solidariedade que denunciam tudo que, de ruim, esteja envolvido na super empreitada, de neocolonização pós-capitalista hardcore a furiosa criminalização dos mais pobres.

E entre esses movimentos, não surpreendentemente, lá está o ícone do Sul Global, Diego “Mão de Deus” Maradona, que disse essa semana que:

(...) a Fifa tira US$4 bilhões (da Copa) e a nação campeã só US$35 milhões. Não está certo. É a empresa desfechando golpe mortal contra o futebol. 
 
Futebol é guerra 

Muito se tem ouvido sobre o paralelo entre a globalização hiper-capitalista – como se vê bem graficamente na Copa do Mundo e nos meganegócios do futebol contemporâneo – e o nacionalismo. 

Ora, o mundo não é e jamais será plano. É um Himalaia/Pamir/Hindu Kush de diferentes altitudes da desigualdade, exposto a avalanches de neve, de comércio, trocas, fluxos de imigrantes e terremotos tecnológicos. Nada disso desfaz os tecidos/fibras nacionais. Ainda é “nós” contra “eles”, com o Sul Global a definir norte-americanos e europeus como “gringos”, tanto quanto levas do Norte industrializado a patrocinar/lucrar no/do “exótico” Sul Global. 

Nada há de pós-nação ou pós-nacional, na Copa do Mundo. No terreno da geopolítica mais hardcore, a supercentralizada União Europeia vai-se fragmentando sob o peso de um bando de partidos nacionalistas de direita ou de extrema-direita; no futebol, a maior diferença, na comparação com a geopolítica hardcore, é que não há só uma potência excepcionalista, mas um punhado, de Espanha ao Brasil, de Alemanha a Itália, de Argentina a França. 

Rinus Michels, técnico do “Carrossel Holandês”, seleção nacional que deslumbrou o mundo em 1974 (mas não levou a taça), disse certa vez que futebol é guerra (feito Samuel Fuller, diretor de cinema e gênio solitário, que disse que o cinema é um campo de batalha). A Copa do Mundo é guerra por outros meios; um duelo oficial, permitido, ritualizado, entre nacionalismos. É questão, só, de escolher sua tribo; só depois que sua tribo já tiver saído da competição, escolha uma tribo substituta – que, para qualquer epicuriano afetado atenderá provavelmente pelo nome de Itália. Afinal, é o mais entusiasmante hino nacional. A melhor comida. Os melhores ternos. E, claro, eles também têm Andrea “O Mago” Pirlo. 

Novo jeito de jogar bola? 


Brasil, justamente elogiado como Terra do Futebol, é também líder mundial na redução das emissões de carbono, segundo pesquisa recentemente publicada na revista Science – e simultaneamente conseguiu aumentar a produção agrícola, ao mesmo tempo em que diminuiu o desmatamento, salvando mais florestas. 

Mas, como sempre em tudo que tenha a ver com Brasil e Copa do Mundo, tudo se misturou – metáfora ao vivo do típico conjunto variado de problemas que o Sul Global tem de enfrentar. A presidenta Dilma Rousseff do Brasil foi forçada a apelar ao estereótipo do brasileiro “homem cordial”, e falou muito de tolerância, diversidade, necessidade de diálogo e até de sustentabilidade, tanto quanto condenou o racismo e os preconceitos, para exortar a população a dar um tempo nas dificuldades locais e do dia a dia, para receber bem uma legião de visitantes estrangeiros. 

Quase desnecessário, se se considera que o brasileiro médio é naturalmente caloroso e muito amigável; mas o demônio está nos detalhes – por exemplo, em pelo menos 200 mil pessoas deslocadas de onde moravam, ou, no mínimo, ameaçadas de expulsão, para dar lugar a grandes obras para aumentar a “mobilidade urbana”. OK. Só 10% dessas obras foram concluídas, em vários casos por culpa da corrupção massiva. No Rio de Janeiro, não se investiu um único real num sistema de transportes caótico usado pelo crescente proletariado das periferias urbanas. 

Lula, o ex-presidente ainda super, super, super popular, disse, quando estava na presidência, em 2009, que não seria gasto nenhum dinheiro de impostos, na Copa do Mundo. De fato, não, diretamente. Os financiamentos saíram do BNDES, Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, que empresta dinheiro a bancos. E as empresas que construíram os novos estádios também se beneficiaram de várias isenções de impostos. 

Resumo da história é que o governo da presidenta Dilma acabou perdendo a batalha “midiática”. Várias vezes a presidenta teve de explicar que a Copa custaria o correspondente a uma pequena fração do que é investido em saúde e educação (tema sobre o qual ainda cabe discussão). Pode dizer que metade da população brasileira ou não entendeu ou não foi convencida. 

E nada garante, até agora, que uma vitória do Brasil na Copa do Mundo garanta automaticamente a reeleição da presidenta Rousseff. [1] Mas é preciso dizer que as recentes ondas de protesto, onda após onda, começaram, de fato, antes do governo da presidenta Rousseff. É como se todos esses diversos movimentos sociais estivessem manifestando agora, concentradamente, o mais radical e utópico dos desejos: apagar, de uma só varrida, séculos de injustiças perpetradas pelas elites brasileiras notoriamente rapinantes e arrogantes e ignorantes – as quais mesmas elites sempre implementaram políticas de total exclusão política e econômica, baseadas na mais abjeta segregação racial e de classe. 

Significa que o drama todo não é simplesmente sobre tendências “antineoliberais” ou “anticapitalistas”. Vai muito além do nacionalismo. E bem pode ser muito mais profundo e importante que um manual de revolução que use o futebol como pretexto. Seja qual for o resultado dessa guerra que se trava em torno do futebol, mesmo assim o Brasil ainda poderá ensinar boa lição a todo o Sul Global. 

Na vitória, ou mesmo na derrota gloriosa, talvez o Brasil encontre a estamina necessária para tentar uma nova abertura estratégica – um novo modo, novo, não arrogante, não neocolonial, não armado, não excepcionalista de liderar e usar o poder, para construir alianças e firmar grandes acordos geopolíticos em mundo multipolar. Um jeito novo de jogar o jogo. Que comece, então, o Novo Grande Jogo. 

Nota dos tradutores: 

[1] 8/6/2014, The Guardian em: “Brazil’s politicians banking on World Cup victory to help soothe unrest”

[*] Pepe Escobar (1954) é jornalista, brasileiro, vive em São Paulo, Hong Kong e Paris, mas publica exclusivamente em inglês. Mantém coluna (The Roving Eye) no Asia Times Online; é também analista de política de blogs e sites como: Tom Dispatch, Information Clearing House, Red Voltaire e outros; é correspondente/ articulista das redes Russia Today, The Real News Network Televison e Al-Jazeera. Seus artigos podem ser lidos, traduzidos para o português pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu e João Aroldo, no blog redecastorphoto.
Livros:
- Globalistan: How the Globalized World is Dissolving into Liquid War, Nimble Books, 2007.
- Red Zone Blues: A Snapshot of Baghdad During the Surge, Nimble Books, 2007.
- Obama Does Globalistan, Nimble Books, 2009.

Fonte: Rede Castorphoto. Traduzido pelo coletivo Vila Vudu

Análise das pesquisas mostra bom momento para Dilma após a Copa

É bom olhar além das pesquisas de opinião para dar um passo à frente na análise de conjuntura e perceber seus impactos na futura campanha eleitoral. O vento está virando a favor de Dilma. Em termos políticos e econômicos, com todos os percalços, Dilma tem um cenário que caminha do estável para o positivo.

Por Antonio Lassance*


A presidenta Dilma Rousseff defendeu a participação social e a consulta no processo de decisão de políticas do governo.A presidenta Dilma Rousseff defendeu a participação social e a consulta no processo de decisão de políticas do governo.


















Como já se imaginava, PMDB e PDT oficializaram apoio à sua reeleição. PSD, PP, PTB, PROS e outros estão a caminho de fazer o mesmo, sem surpresas.

As resistências que a presidenta ainda encontra nesses partidos têm muito a ver com as disputas pelos governos estaduais. Mas, como em 2006 e 2010, é preciso olhar não só os candidatos a governador, mas a relação direta que o Planalto tem com prefeitos, inclusive os da oposição.

Mesmo a subida momentânea de Aécio nas pesquisas, maior e antes do esperado, contribui para configurar o cenário ideal para Dilma, na medida em que o PSDB se firma como o adversário principal e ideal para servir de saco de pancadas.

Dilma ainda depende, politicamente, de uma Copa do Mundo que transcorra com normalidade – torcida não só dela, mas da grande maioria da população.

Mesmo assim, os maiores riscos na Copa se concentram, sem sombra de dúvida, em São Paulo, com foco em um assunto do Governo do Estado – a campanha salarial dos metroviários.

Outro problema, a CPI da Petrobrás, tornou-se tão saturado que a própria oposição deixou de ir à sessão para ouvir o acusado que diziam ser o “homem bomba” do caso.

A possibilidade de segundo turno é ainda real, mas continua no fio da navalha. O desgaste de todos os políticos é um freio de mão puxado para os oposicionistas que, nos setores descontentes do eleitorado, são tidos mais como veneno do que como remédio para a política nacional.

Em termos econômicos, a inflação, alta no primeiro semestre, como no ano passado, tende a iniciar uma tendência de queda e reversão de expectativas negativas.

Além da melhora no preço dos alimentos, um fator crucial entrou em campo: o preço da energia está despencando. O nível dos reservatórios tem ficado acima do esperado, o que se reverte em uma previsão de afluência maior.

Somado à redução na demanda, durante o inverno, o preço da energia está caindo, e muito. A redução, em média, tem chegado a 45%. Na Região Sul, está sendo vendida 60% mais barata.

Na contramão, o governo tucano do Paraná pede que a Aneel conceda um tarifaço de 32% em favor da companhia elétrica de seu Estado. O assunto já virou tema de campanha dos oposicionistas Roberto Requião (PMDB) e Gleisi Hoffmann (PT) e é um prato cheio para ser nacionalizado.

De quebra, a ameaça de crise do sistema (apagões generalizados) ficou cada vez mais remota.
A partir de agosto, com bastante tempo de TV para fazer frente à campanha midiática tucanófila, será hora da candidata responder aos ataques e dizer a que veio, sem ter que se preocupar tanto com inflação, Petrobrás e Copa como tem feito agora.

O grande adversário de Dilma está no campo social. É o risco da mesmice, se seu programa não trouxer grandes e empolgantes propostas de mudança, e o desencanto com a política, para a qual a população gostaria de uma boa chacoalhada.

Quem sabe a própria oposição forneceu o mote ideal para chacoalhar o debate sobre o sistema político.

O decreto presidencial que reforça a participação popular no Governo Federal incomodou os partidos e a mídia tradicionais até mais do que se esperava.

É um ótimo sinal de uma boa briga – a mesma que se comprou em favor do Bolsa Família e dos Mais Médicos; a que faltou no Plano Nacional de Direitos Humanos-3.

*Antonio Lassance é cientista político. Portal Vermelho