domingo, 24 de fevereiro de 2013

Papéis do WikiLeaks expõem ação política do Vaticano na América Latina

Atualizado: 23/02/2013 20:14 | Por Jamil Chade, estadao.com.br

Cerca de 130 telegramas mostram que pontificado de Bento XVI agiu nos bastidores para influenciar região, incluindo articulação com EUA para que avião que traria papa ao País em 2007 fizesse escala forçada em Caracas para pressionar Chávez



GENEBRA - O regime cubano, a "ameaça" de Hugo Chávez, a crise em Honduras ou mesmo os acordos comerciais do Brasil. O Vaticano sob o pontificado de Bento XVI, longe de ter uma postura de mero espectador, adotou iniciativas políticas nos bastidores para influenciar a situação na América Latina nos últimos anos e defender seus interesses.
É o que revelam mais de 130 telegramas vazados pelo site WikiLeaks, e obtidos com exclusividade pelo Estado, apontando para as entranhas das relações políticas do Vaticano desde 2005 na região latino-americana, que representa mais de 40% de seus fiéis no mundo.
Tentando ter um papel político central no continente, a Santa Sé tratou de algumas das crises no hemisfério com o presidente dos EUA, Barack Obama. Documentos revelam que o cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano, fez propostas concretas para o governo americano sobre a situação em Honduras quando se reuniu, em 10 de julho de 2009, com o presidente Obama.
Num telegrama de 15 de julho de 2009, a embaixada americana na Santa Sé relata um encontro de diplomatas americanos com monsenhor Francisco Forjan em que o Vaticano rejeita chamar a retirada de Manuel Zelaya da presidência como um "golpe de Estado". A Igreja pedia ao governo americano que insistisse com seus parceiros para que explicassem ao público as "ações anticonstitucionais de Zelaya que precipitaram a crise". O líder da Igreja nesse assunto era o cardeal Oscar Rodriguez Maradiaga, arcebispo de Tegucigalpa e hoje considerado como um dos potenciais candidatos a papa.
Um dos temas mais constantes nas reuniões entre diplomatas americanos e cardeais do Vaticano é a situação de Cuba. Um telegrama de 19 de agosto de 2009 revela que uma viagem de cardeais e bispos americanos a Cuba naquele ano não era apenas uma visita episcopal. A meta era também a de pressionar o governo de Havana em relação aos prisioneiros políticos, um pedido de Washington.
O telegrama escrito pela representação americana em Cuba conta que o cardeal de Boston, Sean O'Malley, um dos que estarão no conclave, reuniu-se com o presidente da Assembleia Nacional de Cuba, Ricardo Alarcón. O documento revela que os cardeais e bispos relataram ponto a ponto ao governo americano como havia sido a conversa com Alarcón. "Apreciamos o fato de a delegação (de religiosos) ter levantado os problemas de prisioneiros políticos", indicou o telegrama.
No dia 15 de janeiro de 2010, o Vaticano fez uma sugestão concreta ao governo americano para enfraquecer o regime cubano: baratear os custos de ligações entre Cuba e os EUA. A proposta foi apresentada por monsenhor Nicolas Thevenin, conselheiro político de Bertone. "Isso poderia ter um impacto positivo na promoção de uma mudança política", indicou.
A Venezuela de Hugo Chávez é apresentada pela Santa Sé como a grande preocupação na região. Para Accattino, um endurecimento da posição dos EUA diante de Cuba poderia acabar ajudando Chávez, "o novo sucesso de Fidel Castro na América Latina". "A diferença é que ele tem os recursos do petróleo", alertou. O Vaticano, em diversas conversas com diplomatas americanos, deixou claro que Caracas vinha pressionando a Igreja e transformado a Santa Sé em um de seus alvos de crítica.
Pressão contra Chávez. Três anos antes, no dia 1.º de fevereiro de 2007, o embaixador americano em Caracas, William Brownfield, e o cardeal Jorge Urosa Savino se reuniram na casa do núncio apostólico na capital venezuelana para discutir a possibilidade de que o papa Bento XVI usasse sua viagem que faria naquele ano ao Brasil para pressionar Chávez. Uma viagem oficial a Caracas estaria descartada pelo Vaticano. "Chávez não o convidaria", disse o cardeal.
Os dois passaram a debater a possibilidade de que o avião que traria o papa de Roma a São Paulo, em maio, fizesse uma parada de 45 minutos em Caracas, com a justificativa de reabastecer. Nesse período, o papa receberia bispos e faria uma declaração. "O cardeal concordou que qualquer parada teria uma importância simbólica", indicou o telegrama, apontando para a reação positiva de Savino. A escala acabou não ocorrendo.

Diplomata cubano fala sobre o modelo socialista de seu país


A Redação do Portal Vermelho entrevistou, no dia 16 de fevereiro, o Cônsul Geral de Cuba em São Paulo, Lázaro Méndez Cabrera, que também ocupa o cargo de Embaixador (regional), pela extensão do território a que atende: o sul e o sudeste do Brasil. Nestas regiões residem cerca de 2.500 cubanos, segundo registros do Consulado.

Por Moara Crivelente, da Redação do Portal Vermelho


Cuba Debate
Crianças na escola de Havana, Cuba.  Todas as crianças vão para a escola em Havana, Cuba
O diplomata abordou temas fundamentais na história da revolução cubana, como a influência dos EUA na independência e na elaboração de uma Constituição, entre 1898 e 1906, e as consequências de uma intervenção militar determinante ainda sentidas atualmente.

A base militar estadunidense em Guantánamo, as migrações, as políticas imperialistas (como o bloqueio e o embargo a Cuba) e a atualização econômica do modelo cubano para o desenvolvimento e a cooperação internacional foram os assuntos principais.

Em Cuba há mais de 8 milhões de eleitores, que participaram amplamente nas Eleições Gerais de 2007, para eleger os delegados das Assembleias Municipais do Poder Popular. Existem 37 749 colégios eleitorais habilitados em 169 municípios, que possibilitam uma importante e ativa participação política popular, de acordo com o Ministério de Justiça.

A capital de Cuba, Havana, sedia as negociações de paz entre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia-Exército do Povo (Farc-EP) e o governo do presidente Juan Manuel Santos, desde o início do processo, em 2012. O cônsul garante, entretanto, que o único papel exercido por seu país é o de garantir a estabilidade e a segurança necessárias para o diálogo, sem qualquer interferência política no assunto. Mesmo assim, diz acreditar que as partes chegarão a um acordo, “para uma sociedade mais justa, mais tranquila, mais pacífica na Colômbia, para que se acabe com esse conflito de muitíssimos anos.” E completa: “estamos certos de que por via das armas já não há solução.”

Perguntado sobre a visita da blogueira Yoani Sánchez ao Brasil e toda a atenção midiática que ela recebe, Cabrera pediu para não comentar, devido ao cargo que ocupa. Por isso, e por causa do pouco espaço que as conquistas sócio-políticas cubanas recebem da mídia, em geral, e na grande mídia brasileira, em particular, o Vermelho publica a entrevista com uma perspectiva abrangente sobre a situação atual de Cuba, colocada em contexto.

Portal Vermelho – Poderia dizer algo sobre a blogueira Yoani Sánchez, que visita o Brasil? A mídia tem lhe dado bastante atenção, especialmente aqui, e queríamos saber o que acha desse foco dado a ela.
Lázaro Cabrera (foto) – Eu prefiro que seja um brasileiro, ou uma brasileira, a falar sobre esta senhora. Porque um cubano, ou ainda um oficial, o que vai dizer? Acho melhor que seja outra pessoa; acho que assim é mais credível.

Vermelho – Falamos um pouco sobre a política de Cuba, então?
LC – Você pode perguntar o que quiser, só não responderei se não souber. Não há tabu em nada nisso, as perguntas não são indiscretas.

Vermelho – Pode começar contando-nos sobre o estatuto de “exiliado” de que tantos cubanos gozam em países como os Estados Unidos?

LC – Esse estatuto, nos EUA, como em muitos outros lugares, é um problema político. Eles são emigrados, como todos os que vão viver no exterior. Nós sempre dizemos que o socialismo é uma sociedade de homens e mulheres livres, por tanto, quem não quiser viver nela e quiser ir embora, tem uma decisão pessoal. Agora, há uma legislação que estabelece que certas pessoas não possam sair, ou podem dentro de X quantidades de anos. Por exemplo, aí temos cientistas, militares de alto nível... cientistas são muito importantes [nessa lista] porque faria um dano tremendo ao país se saíssem.

Vermelho – E quando isso mudou?
LC – Mudou no dia 14 de janeiro de 2013. Devo contar uma história pequena: Em 1º de janeiro de 1959, na revolução, em Cuba, havia 6.000 médicos para todo o país, a maioria em Havana. Como o que acontece aqui no Brasil e está discutindo agora no Brasil, a maioria dos médicos servia às grandes cidades e aquelas que melhor lhes pagam.

Em Cuba, eram 6.000 médicos para 6 milhões de habitantes. Nos primeiros três ou quatro meses [da revolução], 3.000 médicos foram para os EUA. Decidiram partir, porque lhes pagavam mais, não importa. E Cuba teve que tomar medidas muito drásticas nesse sentido, e começar a preparar médicos urgentemente. Os que ficaram, professores, começaram a prepará-los.

Atualmente, Cuba tem quase 100 mil médicos; multiplica para saber quantas vezes cresceu o número de médicos nesse tempo. E posso te dar um dado: até o ano 2010, aproximadamente, saíram ao exterior mais de 80.000 médicos, para trabalhar e voltar. Cerca de 10% não regressou. Por isso, Cuba teve que tomar uma medida: o médico que fique no exterior, não pode regressar, para frear essa [fuga]. Porque isso é um recurso humano que custa muito.

Eles queriam partir para países desenvolvidos, como os Estados Unidos, que estão recebendo uma quantidade tremenda de profissionais que não lhes custaram nada, preparados em Cuba. Então, para atraí-los, prometiam-lhes um salário altíssimo, e isso acontecia com os médicos e com os esportistas de alto rendimento, que também custam muito, que já chegavam preparados. Para nós, isso custava muito e por isso também foi preciso dizer: os esportistas que fiquem no exterior, não podem voltar.

Agora, na modificação ocorrida no dia 14 de janeiro, na Lei Migratória, os médicos e os esportistas que ficaram fora por mais de oito anos podem visitar Cuba. Não há qualquer impedimento para a saída dos médicos; na realidade, atualmente há cerca de 40 mil médicos cubanos trabalhando em todo o mundo. E esses médicos não trabalham em grandes cidades, mas no campo, nas montanhas, etc. Na maioria dos casos, ainda, é gratuito [parte da cooperação internacional].

Em Cuba há cerca de 100 mil médicos e seguimos formando médicos todos os anos; perguntam-nos: “para quê tantos médicos, se Cuba é tão pequena?” e dizemos: “para o mundo! O mundo precisa deles.” Há médicos cubanos em praticamente toda a geografia latino-americana, na Ásia, na África.

O que fazemos na África também agora mudou um pouco; antes mandávamos médicos, e agora estamos mandando professores para a formação de médicos lá, que dão aulas e que também atendem a população.

Vermelho – E Cuba tem acordos com os governos africanos, então? Ou com alguma organização?
LC – Temos acordos com os países individuais e também com a Organização Mundial da Saúde (OMS), para países que precisem disso. Por exemplo, nesse momento, temos um acordo tripartite entre Cuba, Brasil e a OMS para produzir vacinas na África contra a meningite e contra um tipo de hepatite específica de lá. São vacinas cubanas que se produzem em laboratórios brasileiros, pois o Brasil tem uma potência tremenda para produzi-las, e não só através dos governos, mas também com entidades privadas.

E temos outra [colaboração internacional], também tripartite, entre Cuba, Brasil e o governo do Haiti, em que o Brasil dá um empréstimo com taxas quase nulas, solidário, para a construção de cinco hospitais em lugares distintos e estratégicos. Já há três concluídos, com equipamentos cubanos e brasileiros, e os médicos são cubanos. Também há médicos de muitos países latino-americanos, estudantes da Elam (Escola Latino-americana de Medicina) que, em seu último ano, vão para lá voluntariamente. É uma coisa bonita, que está dando resultados importantes e necessários. Coisa que a grande mídia não publica, não lhes interessa publicar.


   Hospital cubano no deserto do Catar (Oriente Médio)

Também temos aqui mais de 18 acordos gerais de estudos na esfera de biotecnologia e engenharia genética entre instituições cubanas e brasileiras, algumas privadas e outras do governo, com estudos importantes, em cooperação, para a saúde humana, para a saúde animal e para a ambiental, questões muito necessárias.

Vermelho – E sobre as viagens internacionais e os chamados “dissidentes”, como se gere isso?
LC – Às vezes chamam as pessoas de dissidentes... não são dissidentes; por exemplo, a esta senhora [Yoani Sánchez] chamaram de dissidente, mas ela não é! Nunca foi revolucionária, por isso não pode ser dissidente.

Então, esses senhores que viajaram a Cuba, o [espanhol Ángel Carromero] líder da Juventude Popular espanhola, e o outro [Aron Modish]de uma organização sueca, tiveram um acidente automobilístico em Cuba. Quem conduzia era o espanhol, e dois cubanos [que os acompanhavam] morreram. Eles [entraram em Cuba] com visto de turista, que compraram em uma agência turística, mas dedicavam-se a reuniões, organizando o que diziam ser “a dissidência em Cuba”, e tiveram essa má sorte com esse acidente. [O espanhol] foi preso, foi julgado, e foi deportado para a Espanha para que cumpra a sua pena, mas tenho certeza de que não será preso.

Vermelho – Em relação à soberania, de que espaço Cuba tem disposto para protestar contra a base militar estadunidense em Guantánamo?
LC – Do espaço que nos dão as organizações amigas, como o Centro Brasileiro de Solidariedade e Luta pela Paz (Cebrapaz).

A Cebrapaz é muito ativa na denúncia, não só sobre Guantánamo mas em geral, e sobre Guantánamo em especial.

A questão é uma usurpação à força, eles provocam e nós não nos deixamos provocar. Se não provocamos por 50 anos, agora é que não o faremos mesmo, nós agora temos experiência, sabemos como fazer isso. E continua lá a base de Guantánamo.

Esta base, desde o ponto de vista militar, não tem qualquer importância. Estrategicamente, não é nada. É um problema político, dos Estados Unidos de dizer: “nós somos grandes, nós somos fortes, queremos fazer isso e você que é pequeno, que se cale.” É uma afirmação de força, algo político. E se aproveitaram [da base] para ter lá aos infelizes, presos nesse limbo jurídico há anos, em um lugar onde se maltrata, se tortura...

E quando dizem: “em Cuba há tortura”, é verdade. Em Cuba há tortura, na base de Guantánamo, que tem estado ocupada, ilegalmente, pela força, pelos Estados Unidos. E temos essa possiblidade de lutar a partir dessas organizações, como Cebrapaz e outras, que são solidárias com Cuba.

Mantemos isso como algo latente, permanente, para que não se esqueça de que há uma usurpação ilegal e pela força de um pedaço do território Cubano que, militarmente, repito, não tem importância. Em uma confrontação de Cuba com os EUA, esse pedacinho afunda no mar. Não têm armas estratégicas nem nada disso em Guantánamo. Esses irresponsáveis não são tão irresponsáveis assim, a ponto de manter nesse território esse tipo de armas.

Mas nós seguimos trabalhando para que esse tema não seja esquecido, e creio que mais cedo ou mais tarde isso terá solução. [O estabelecimento da base militar em Guantánamo] foi um acordo entre os EUA e Cuba à perpetuidade, quando as tropas norte-americanas estavam em Cuba. Foi com o primeiro governo cubano, da república recém-independente.

Em 1898, quando as tropas norte-americanas entraram no país e quando terminou a guerra [de independência], os EUA mediaram a independência e tomaram Cuba militarmente, e lá estiveram até 1906. Fizeram um acordo, da Emenda Platt [à Constituição cubana], do senhor Platt, senador norte-americano, que estava em Cuba e organizou a constituinte, e que introduziu na Constituição cubana seis pontos, dos quais um era a criação em Cuba de bases navais e de hidrocarbônicos; outro era que os EUA poderiam intervir militarmente em Cuba quando considerasse que a segurança de seus nacionais estava em perigo; outro foi que Cuba não podia assinar tratados internacionais com outros países e que as relações internacionais de Cuba se realizariam através do Departamento de Estado dos EUA; enfim.

À constituinte não restou mais opção além de aceitar, porque Cuba era um país tomado militarmente. Ou aceitava ou as tropas estavam a postos. Então, aceitou. Depois, pela pressão pública, a emenda foi retirada da Constituição, mas ficou um acordo feito à perpetuidade, onde se cedia aos EUA o território de Guantánamo, como uma base naval. Isso, também, desde o ponto de vista jurídico é ilícito, porque nada se dá à perpetuidade, principalmente não um território de um país.

Porém, nós não queremos provocações, uma guerra, pois uma guerra não nos convém, nem aos EUA, nem à América Latina.

Vermelho – Bem, poderia falar também sobre o processo político interno? Porque quando a mídia fala de uma suposta “abertura”, política ou econômica, é como se Cuba estivesse se "salvando" agora...
LC – Nós chamamos de outro nome, chamamos de “atualização” do modelo [econômico e social] de Cuba. Isso é complexo, não é fácil, é algo em que estamos trabalhando. Fazemos isso sem pressa, mas também sem pausa. Não apurado, mas tampouco parado, vendo muito seriamente o que estamos fazendo, o que estamos introduzindo.
Há pessoas que dizem que Cuba está indo rumo ao capitalismo. Mas posso assegurar que é precisamente o contrário.

Vermelho – Os mesmos que chamam o processo de uma “abertura”?
LC – Sim, de um processo de abertura, como se Cuba não estivesse ali antes. O que estamos dando agora é mais possibilidades do ponto de vista da economia, a introdução de muito trabalho por conta própria, privado, porque se você consulta aos clássicos do marxismo, se faz o estudo completo de Marx, Engels, Lenin, e outros, em nenhum desses textos encontra que cem por cento da atividade econômica deve ser concentrada pelo Estado.

Marx disse que uma sociedade socialista se estabeleceria só em países desenvolvidos. Depois Lenin demonstrou outra coisa, mas foi o que Marx disse a partir [da premissa] de que deveria estar garantido o desenvolvimento da ciência, da tecnologia, etc. E o que estamos fazendo é precisamente isso, e colocando em mãos privadas, mas não tão privadas assim, porque estamos priorizando as cooperativas.

Em Cuba há muita experiência em cooperativas agrícolas desde o princípio da revolução. Em 17 de maio de 1959, Fidel Castro assinou a Lei de Reforma Agrária. Depois houve uma segunda lei, mas a primeira praticamente destruía os latifúndios, entregava a terra aos campesinos, em que eles trabalhavam, com um título de propriedade. E deixava em mão dos latifúndios uma grande quantidade de terra, cerca de 390 hectares, uma área tremenda. Isso foi aos campesinos.

Depois, na segunda reforma agrária deixamos ao latifúndio só 65 hectares, que não é depreciável, é uma boa quantidade. E esses campesinos, muitos se uniram em cooperativas e muitos seguiram como campesinos independentes. Por isso criou-se uma Associação Nacional de pequenos agricultores, que tem mais de 50 anos. Com o tempo, isso foi mudando muito; de quase 78% das terras em mãos do Estado, isso se reverteu: essa mesma quantidade está agora em mãos das cooperativas ou em mãos privadas. O resto está nas mãos do Estado.

Eu acho que Cuba é o único país do mundo que diz às pessoas: “toma a terra, te dou um crédito”, não sei se em outros países é assim. Nos últimos quatro anos foram entregues quase 3 milhões de hectares nessa situação, e a imensa maioria [dos que receberam terras] fez cooperativas. As cooperativas te dão a possibilidade de trabalhar a terra; um campesino sozinho, independente, num pedacinho de terra, é muito difícil aplicar a técnica. Por exemplo, em 26 hectares de terra, um trator ficará parado na maioria do ano. Se fizer fumigação, colocar herbicida e tudo isso, você terá que fazê-lo a mão.

A propriedade da terra é do Estado, e ela é dada às cooperativas em usufruto. Só têm propriedade da terra aqueles que, originalmente, em 1959, receberam o título da terra; isso era uma promessa da revolução. Agora, a terra é dada em usufruto; [pelo acordo], amanhã, se [a pessoa que recebe] não quer trabalhar a terra, não pode vendê-la, tem que devolvê-la ao Estado para que ele redistribua. A pessoa trabalha a terra e é dona absoluta do produto do trabalho, que a pessoa pode vender ao Estado ou à população, como entender conveniente.

Vermelho – E como está o processo atual? Que mudanças importantes, ou que atualizações estão se desenvolvendo em Cuba, em termos econômicos?
LC - Essas coisas não são novidade; o que é novidade são as indústrias, os operários, as pequenas empresas, que estamos priorizando também que sejam cooperativas, porque dar um crédito a um individual é uma tragédia, dar a 400 mil pessoas. [É melhor fazê-lo] através das cooperativas.

Nós pedimos ao Brasil um crédito de 250 milhões para produzir mais alimentos. Com esse crédito, vamos comprar no Brasil equipamentos para a produção agrícola, para vender aos privados, fundamentalmente aos cooperativistas, para a produção de alimento e também para prestar serviços à população.

Por exemplo, em Cuba, os cabeleireiros eram estatais, mas agora se privatizaram. Mas lhes propusemos fazer cooperativas, e assim foi. Seus salões recebem crédito em equipamentos, e assim floresceram; isso também aconteceu na construção de casas. O Estado lhes dá crédito e facilidades para adquirir material para produzir.

As pessoas compram casas, pedem um crédito ao banco para pagá-las. Se forem pessoas solventes, conseguem o crédito, pagam a casa e têm o título, e depois pagam ao banco.

Também objetivo de segurança nacional é a medicina verde; produzimos em Cuba, em distintas províncias do país, o que fundamentalmente necessitaria a população em caso de um bloqueio total. Por exemplo, no período especial, vimos a efetividade disso. As farmácias verdes por exemplo estão dando resultados magníficos, para diversos tipos de enfermidades. Havia plantas que só nasciam no litoral, mas já as produzimos nas montanhas; as do ocidente, conseguimos levar para a parte oriental; enfim, isso é um trabalho importante.

Esse projeto começou com o Ministério das Forças Armadas; Raul [Castro], quando era ministro, começou a fazer isso. Agora, já é um trabalho do Ministério de Saúde e do Ministério da Agricultura. E são medicamentos naturais, que não fazem mal, e produzidos por nós mesmos.

Vermelho – Então isso é uma questão de soberania, de segurança?
LC – Essas são coisas recentes e estão dando magníficos resultados, principalmente na questão da produção de alimentos. Isso é questão de segurança nacional para nós, pois se um dia um ianque cerca Cuba de barco e decide que não entrará nada, [não haverá nada]. Por isso, vamos produzir o que tivermos que produzir.

Vermelho – E pode nos dizer algo sobre o processo contra os Cinco Cubanos nos EUA?
LC – Os Cinco vão agora completar 15 anos presos. É um caso que não fechamos, vamos trabalhar continuamente nesse sentido. No Brasil há muitos movimentos de solidariedade. Há Comitês pela Libertação dos Cinco em todos os estados, inclusive há estados em que há mais de um comitê. Por exemplo, os seis estados [do Sul e do Sudeste] que eu atendo têm comitês com atividades muito fortes, com divulgações em redes sociais bastante fortes, por exemplo.

Lutamos agora, fundamentalmente, para que os EUA publiquem, de verdade, o que foi que os satélites fotografaram, com relação à derrubada dos aviões, que é parte da acusação fundamental contra Geraldo, um dos companheiros que foi condenado a duas cadeias perpétuas, uma aberração, a pessoa tem que morrer, viver, e voltar a morrer para cumprir ainda mais 15 anos. Porque foi acusado da queda do avião, o que é mentira, pois aconteceu em espaço internacional. Mas eles não publicam as fotografias dos satélites. Se é verdade, porque não publicam o que seria uma prova?

Outra coisa é a opinião pública interna nos EUA. Há um movimento internacional de pressão que, na verdade, tem uma ação imediata nos dirigentes norte-americanos e uma pressão interna. Praticamente, a sociedade norte-americana, desde o ponto de vista da informação, deixa que se publique se der vontade; estamos trabalhando com associações dos EUA para que eles, através de seus meios e redes sociais, passem a publicar mais sobre o caso. Há grandes jornais que publicaram, mas isso nos custou 50 ou 70 mil dólares por edição.

E estamos também denunciando, para que se conheça publicamente e para que a justiça norte-americana faça algo, porque quando se realizou o julgamento, houve muitos meios de Miami que publicaram muito contra os cinco cubanos, uma imprensa paga pelo governo dos EUA. As provas existem.

Vermelho – Então a opinião pública foi bastante condicionada nesse sentido...
LC – A opinião pública recebeu muita midiatização contra os cubanos; ne mesmo os jurados foram imparciais, por isso. Denunciamos que Miami não é um lugar adequado [para o julgamento], porque toda a propaganda anti-cubana que influenciou muito, não só a população mas também o júri.

Houve declarações de muitas personalidades norte-americanas chamadas [a depor], inclusive de generais, em que praticamente desmentiram ao promotor e à juíza que conduziam a causa, ao dizer que o que faziam os cubanos não constituía qualquer perigo ou ameaça à segurança. [Disseram que] o que os cubanos fizeram foi infiltrar-se em organizações contrarrevolucionárias cubanas para informar sobre o que faziam, para evitar que os cubanos seguissem morrendo e até mesmo que norte-americanos morressem.

Então, as autoridades norte-americanas infiltraram-se com informações nossas. Precisamente a partir dessa informação, é que as autoridades chegaram a esse grupo. Por isso, o que fazemos é seguir lutando para não deixar-se de lado essa questão, para seguir trabalhando com a sociedade norte-americana e para pedir a nossos amigos, os países latino-americanos, inclusive ao Brasil, que trabalhem no interior dos EUA, com blogueiros e meios de imprensa e organizações afins, associações, partidos, etc., para que internamente se possa dar a conhecer toda a verdade com relação aos cinco.

Não queremos que se invente nada que não seja verdade, só que se diga e se publique a verdade. Quando isso for forte e houver pressão interna, o presidente norte-americano vai ter que tomar uma medida.

A única solução possível nesse momento é a anistia, que é potestade do presidente dos EUA. Em todos os casos. Não tanto no caso do bloqueio, porque o bloqueio norte-americano é um emaranhado tão grande de leis... não está somente na Lei Torricelli ou na [Ata] Helms-Burton. Na Lei Orçamentária, por exemplo, há lugares onde está o bloqueio; na lei de subvenções à agricultura, colocam algo contra Cuba, e se alguém se opõe, a lei de subvenção não é aprovada. Mas quem não aprova uma subvenção se mete num problema tremendo, então, isso acaba aceito.

Vermelho - E o que pode dizer sobre a migração entre os dois países, Cuba e os Estados Unidos?
LC - Há muitas coisas que o presidente pode fazer, por exemplo, com relação à liberdade dos norte-americanos que viajem a Cuba. Há uma lei nos Estados Unidos [segundo a qual] os norte-americanos não podem viajar a Cuba. Eles criticavam Cuba que antes de 14 de janeiro nós dizíamos a essa senhora blogueira que ela não poderia viajar. “Vai viajar para quê, para fazer contrarrevolução? Não.” E agora isso foi liberado. Mas não criticam aos EUA, onde há mais de 100 mil norte-americanos que não podem ir a Cuba, ou em que não podem entrar os familiares dos cinco, porque não conseguem o visto.

Ninguém da grande mídia critica os EUA por essas razões, ninguém sabe dessas coisas. É uma situação muito difícil, nesse caso. O presidente poderia dizer, amanhã, que isso seria anulado. Mas os cubanos seguem lá. Houve um momento em que [o ex-presidente George W.] Bush aprovou uma lei incrível [segundo a qual] só poderiam viajar a Cuba os cubanos que tivessem descendência direta, que fossem filhos, pais, ou avós (nem tios, nem primos, nem sobrinhos, nada), e ainda que só poderiam fazê-lo uma vez a cada três anos.

E o senhor [Eduardo] Suplicy criticou muito a Cuba por não dar permissão para Yoani sair. Mas ele nunca disse qualquer coisa sobre o fato de que nenhum norte-americano pode ir a Cuba. Isso é uma prerrogativa do governo norte-americano. Então aquilo também era uma prerrogativa do governo cubano! Que também é livre e soberano, independente.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Material do Expoente: Será que vale isso tudo?


 Enquanto isso, escolas sem professores, sem conforto, sem respeito aos profissionais e alunos, sem metodologia. Mas dinheiro não falta para jogar fora!



Secretaria Municipal de Educação
Extrato de Contrato
CONTRATO No 003 / 2013.
GERADOR: Inexigibilidade.

(OBJETO: Aquisição de materiais didáticos para educação infantil : maternal, GI, GII e GIII) e 1o ano, 2o ano e 3o do Ensino Fundamental) e Implantação da Metodologia de Ensino, Atendimento das Escolas da Rede/Secretaria Municipal de Educação - Formação Professores 1 curso por semestre.
CONTRATADA: EXPOENTE SOLUÇÕES COMERCIAIS E EDUCACIONAIS LTDA.

VALOR TOTAL ESTIMADO: R$ 9.931.603,06 (nove milhões novecentos e trinta e um mil seiscentos e três reais e seis centavos)

FORMA DE PAGAMENTO: em até 30 (trinta) dias, exceto às 40 horas de formação continuada que será paga em até 30 dias após conclusão do curso.

PRAZO DO CONTRATO: imediato
Joilza Rangel Abreu
Secretária Municipal de Educação 

Diário Oficial de Campos dos Goytacazes 18/02/2013

A Globo mente: Mesmo com protesto, Yoani falou em evento em SP

Diferentemente do que foi difundido pela mídia, a blogueira Yoani Sánchez falou por 30 minutos durante o relançamento de seu livro “Para Cuba, com carinho”, denunciou Juliane Furno, presente no evento: “já a organização não deixou que os manifestantes fizessem perguntas ou expressassem uma opinião contrária a da blogueira”. Exercendo a democracia, grupos pró e contra Yoani Sánchez protestaram em frente à Livraria Cultura, nesta quinta-feira (21).

 

 

 

 

 

 

Garotinho diz que matéria sobre o Caps foi retaliação da Globo

Garotinho, discipulo de Dante, considera sempre que o "inferno são os outros". Em Campos, tem de tudo, menos compromisso com a verdade e com o povo trabalhador. QUEREMOS SAÚDE E EDUCAÇÃO DIGNA E DE QUALIDADE!

 

Reportagem

O deputado federal Anthony Garotinho se posicionou hoje (23) sobre a matéria do Jornal Nacional que mostrou a precariedade no atendimento do Centro de Atenção Psicossocial (Caps) 3, na rua 1º de Maio, área central, administrado pela Prefeitura de Campos. Bem ao seu estilo, Garotinho disse que a matéria foi um recado, não endereçado à prefeita, mas a ele. “Vocês devem estar lembrados que no último dia 20 subi à tribuna da Câmara para denunciar a inclusão na Medida Provisória 582 de mais um privilégio à imprensa brasileira”, contou.
Porém, após se colocar como vítima de uma perseguição, Garotinho reconheceu que a situação é precária e garantiu que a prefeita Rosinha Garotinho (PR) vai tomar providências. “Conheço a prefeita Rosinha muito bem e sei que ela irá demitir todos os responsáveis por aqueles desmandos. O orçamento de Campos deste ano para a saúde é de mais de R$ 500 milhões e não se justifica, a não ser por desleixo do responsável por aquela unidade , o tratamento dispensado aos doentes mentais”, disse.
“Punir e mudar o que está errado” — Segundo Garotinho, a prefeita não vai esconder nada debaixo do tapete. “Quero deixar claro que uma coisa, o mau atendimento aos doentes mentais, não tem nada a ver com a outra, a matéria do Jornal Nacional. A prefeita Rosinha certamente vai tomar as medidas necessárias para punir e mudar o que está errado e não fará como a Globo que quando lhe interessa joga a sujeira para debaixo do tapete. E como podem ver não escondo no blog notícias negativas, nem fujo de me posicionar quando alguma coisa está errada mesmo que seja na gestão da prefeita Rosinha, afinal o meu compromisso é com a verdade”, completou.

Alexandre Bastos fmanha.com.br

Mais uma vergonha: Deu a louca na saúde mental em Campos

Sinceramente esperamos que o Ministério Público Estadual e Federal, também, o Poder Judiciário Federal e Estadual não brinquem de morto/vivo, a prefeitura de Campos tem que prestar contas para onde está indo o dinheiro público. Já sabemos, que para saúde da população, nada.

Caps de Campos em situação degradante


Pacientes que deveriam receber atendimento psiquiátrico no Centro de Atenção Psicossocial (Caps) 3, na rua 1º de Maio, área central, administrado pela Prefeitura de Campos, estão vivendo situações constrangedoras e humilhantes, sem as mínimas condições de tratamento. A denúncia foi destaque no Jornal Nacional desta sexta, quando foram divulgadas imagens de pessoas amontoadas pelos corredores da unidade retratada pela reportagem. Nas imagens, um dos funcionários pula por cima dos pacientes deitados no chão, em colchonetes. No local, poucas camas, de solteiro, que também são divididas com quem procura atendimento.

Ainda segundo a denúncia, até para almoçar falta local adequado e os pacientes se veem obrigados a colocar os pratos entre as pernas. Um produtor do Jornal Nacional chega a pedir um copo de água a uma funcionária da unidade, que revela que no local não há água filtrada. “Nós aqui tem mesa farta”, diz a funcionária, ao produtor, que devolve: “Farta?”. Em seguida, ainda segundo as imagens, ela responde que “farta tudo”, numa referência à falta de estrutura da unidade.

As péssimas condições de atendimento no local foram denunciadas pelo irmão de uma das pacientes assistidas pelo programa da secretaria municipal de Saúde de Campos. “Eu me sinto numa situação muito humilhante vendo a minha irmã e outros doentes mentais sendo tratados como animais numa instituição que se diz que é para recuperar as pessoas. Muito pelo contrário, eles tratam as pessoas como bicho. Dormem no chão, comem no chão, não têm dignidade humana nenhuma”, declarou o homem, cuja identidade foi preservada.

A verba para manutenção dos Caps é enviada pelo governo federal. O objetivo é humanizar o atendimento e evitar internações de pacientes com problemas mentais.

Francisco Carlos Rodrigues, psiquiatra ouvido pela reportagem do Jornal Nacional, se disse chocado com a situação vista nas imagens. “O atendimento diário é para que o paciente, dentro do possível, recupere a capacidade de ele viver socialmente. E, sem tratamento, fica meio difícil. Se essa instituição atende dessa forma, está atendendo nos padrões de 1970, 1980”, criticou.

Em Campos são quatro unidades de Caps. Ouvido pela reportagem, o secretário de Saúde, Geraldo Venâncio, disse desconhecer o problema e que vai intervir na unidade denunciada. “Na segunda-feira nós vamos intervir. Pedir a um colega clínico da minha equipe aqui da secretaria e especialmente o subsecretário de Saúde, até que esses reparos sejam feitos”.

Ainda segundo a reportagem, o Ministério da Saúde vai avaliar as condições do Caps em parceria com a Prefeitura, visando adotar medidas para melhorar o atendimento.

Fonte: Jornal Nacional

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Professor precisa ser perturbado a recusar ofensiva conservadora na educação

   Educador destaca poder do currículo oculto para "dizer não"
Para Michael Apple, da Universidade de Wisconsin, professor precisa ser perturbado a recusar ofensiva conservadora na educação. Katarina Ribeiro Peixoto 30/07/2004


Porto Alegre - Passamos muito tempo denunciando o neoliberalismo e não conseguimos perceber que a direita mudou. E é preciso aprender com a direita, não regressivamente, mas progressivamente. A direita compreendeu que precisa mudar e para isso resolveu apoderar-se das expressões e palavras que sempre estiveram com a esquerda, como democracia, participação, solidariedade etc. O resultado dessa apropriação é a dissolução do sentido dessas coisas, inclusive para aqueles que se consideram democráticos. A avaliação é do professor de ensino e currículo de políticas educacionais da Universidade de Wisconsin, Michael Apple, que, durante conferência no Fórum Mundial de Educação, propôs um conjunto de problemas que desafiam a pauta comum dos debates sobre educação e poder. Segundo ele, o problema do poder, como dominação hegemônica, não é tratado como algo estranho às escolas, que se lhes impõe de fora para dentro. Tampouco como se fosse um desconhecido dos próprios professores, uma vez que estes se considerem democráticos.

Apple iniciou sua fala pedindo desculpas ao público pelo governo e pelo sistema educacional de seu país. "Chamamos nosso presidente de nosso residente. Ele pede desculpas por não se encontrar aqui, mas é que ele é presidente e não tem tempo para debater conosco. Mas tenho certeza que ele está nas suas mentes, tanto como na minha". Ao contrário de um mero show retórico, Apple ofereceu um espetáculo de coerência argumentativa e performativa, raramente presente nos debates da esquerda. O ponto de partida de sua argumentação, explicada minuciosamente, na segunda conferência do III FME (Conhecimento, Poder e Emancipação) foi uma provocação. O que o interessa, afinal, não é dizer aos professores o que fazer com suas dificuldades, oferecendo-lhe receitas, mas desafiá-los, perturbá-los e convocá-los a dizer "não", coletiva e organizadamente, à doutrina oficial imposta por uma direita mais conservadora, mais criativa e ainda mais poderosa.

Onde está o poder?
Para isso, considerou a seguinte situação: ele, pesquisador já há alguns anos afastado das salas de aula com crianças e jovens, retorna a uma sala de aula numa favela com um problema matemático de difícil solução. Então, um aluno se levanta e diz que sabe resolvê-lo. "Eu reajo com surpresa. Sei que esse aluno, que parte de uma favela, que não teve as mínimas condições de aprendizado, não poderia dar conta desse problema. Pois o que pergunto é: reagiria da mesma forma numa escola que atendesse a alunos de classe média? Não". Isso de fato ocorreu, na África do Sul, poucos anos atrás, numa pesquisa de campo do professor. E é desse juízo prévio dos professores que Apple se ocupa, para tratar a educação como um ato essencialmente político.

A educação é um ato político, segundo ele, sob vários aspectos. E para compreender as mudanças de rumo da educação é preciso ter em conta essa sua característica central. Se a educação é um ato político, é, afinal, um centro de irradiação de poder. Mas isso não é simples. "Nos acostumamos com uma divisão entre conhecimento oficial e seu outro, o conhecimento popular", onde um conjunto de conhecimentos é considerado "oficial" porque é dominante, observa o professor norte-americano. "Mas o que me ocupa, aqui, é o ‘currículo oculto‘", esse que habita as mentes e comportamentos dos professores em sala de aula, na escola e na sociedade. E é nesse contexto que o exemplo acima faz sentido. Pois bem, em que sentido a educação é essencialmente um ato político? E quais as relações de força que estão condicionando as mudanças na educação hoje?

Para Apple, a educação tem funcionado com um meio de selecionar as pessoas através de uma suposta "pacificação” das diferenças entre elas. A educação, em segundo lugar, é também um cenário no qual as mulheres têm desempenhado um papel fundamental. Além disso, a educação tem sido, especialmente nos EUA, vilipendiada por cortes orçamentários de vulto, em favor do alto financiamento armamentista do país. "Mas há ainda uma última forma em que a educação é política: quem tem a voz, quem está fazendo a educação. E é por isso que Porto Alegre está dando um exemplo para o mundo". Para o professor, o Brasil se tornou um professor-mundo. "Especialmente nesta cidade, onde políticas importantes estão sendo construídas. Por isso, insisto que lembremos do que está sendo feito aqui". Mas essas não são questões novas, disse Apple, não são problemas nem soluções desconhecidas para os educadores.

O novo "guarda-chuva" neoliberal
O que é novo, segundo ele, é o modo como a direita tem atuado em relação à educação. E alertou: "Se quisermos mudar, temos de analisar como a direita funciona e como eles chegaram ao sucesso. A direita sabe que para vencer no Estado precisa vencer na educação. Infelizmente, a direita entendeu melhor isso que a esquerda. A direita compreendeu que precisa mudar". Mas, como se deu esse "aprendizado" dos setores dominantes? Apple propôs uma metáfora de um guarda-chuva para explicitar essa mudança. "Os grupos dominantes têm um esforço de consenso via educação: alcançar o entendimento real das pessoas. E a direita tem sido extremamente criativa nisso. Até porque os grupos dominantes perceberam muito bem que estava chovendo fora do seu guarda-chuva." Mas em que consiste, exatamente, o guarda-chuva ideológico da direita? Para o professor, esse guarda-chuva contém quatro poderosos grupos: os neoliberais dos anos 90, os neoconservadores, que não abdicam, nem discursivamente, do Estado, os populistas autoritários e o que chama de a nova classe média profissional.

O primeiro grupo se caracteriza por um conjunto de poderosas crenças simples. Assim, a administração pública se apresenta como um buraco negro, onde o investimento se dá, sempre, a fundo perdido. Acreditam na ficção de um Estado fraco, mas querem um Estado forte para assegurar os mercados e controlar a visão das pessoas. Essa concepção, predominante nos anos 90, gerou um estado de coisas que Apple descreve assim: "Nos EUA eles estão muito interessados hoje em dar comida, cobertores e abrigo aos pobres, principalmente aos negros pobres. Por isso, estão encarcerando todos os que não participam da sua ficção". O segundo grupo é o dos neoconservadores. Eles acreditam num Estado forte e na "devolução da cultura ‘real‘ dos americanos para os americanos". Querem um Estado forte, com controle de conhecimento, nacionalização dos currículos (o que já está ocorrendo hoje nos EUA). Estão absolutamente centrados nos testes e avaliações nacionais segundo o currículo unificador nacional. Pretendem, assim, disseminar um conhecimento fraco, pacificador e uniformizante.

Onde Deus fala inglês
O terceiro grupo, o dos populistas autoritários, tem uma radicalidade própria. "Deus fala inglês e o capitalismo é o sistema econômico divino. Os negros são aqueles que Deus marcou". E, disse ainda o professor, "se vocês acham que isso é inconseqüente, lembrem que quem ocupa a Casa Branca hoje é desse grupo. A guerra ao Iraque, por isso, não é somente em torno do petróleo, ela gira também em torno da religião". E há também o que ele chamou de nova classe média profissional. Essa classe média, que compõe o quarto grupo de poder, se caracteriza pela atual ocupação de postos no Estado. Seu capital, segundo Apple, "é o capital da estrutura". É sua competência técnica que está ocupando lugar. Mas há um paradoxo no interior dessa imersão da classe média nas estruturas do Estado. Esse paradoxo é dado pelo alargamento do sistema educacional. Se hoje as classes populares estão contempladas de forma inédita no sistema educacional, o capital que o conhecimento da classe média representava foi fortemente desvalorizado.

Uma das conseqüências disso é, segundo Apple, que o capital dessa classe é reduzido aos sistemas de avaliação que o poder hegemônico impõe. "Hoje, o que se move em sala de aula tem de ser avaliado, medido". Essa é uma faceta do quanto o capital social da classe média está valendo menos. Por mais que se trate de uma questão parcial, o professor salientou que essa classe tende a manter, a conservar, nela, seus descendentes. E então, tende, como, inclusive, professores das redes do sistema de ensino, a perpetuar a uniformização e o controle indiscriminado a que estão se submetendo, à medida que perdem capital.

Significantes escorregadios: capitalismo na economia e comunismo na cultura
Qual a faceta mais comum desses grupos? Para Apple, o que unifica esses grupos é que eles gostam de coisas simples. Acreditam na racionalidade da economia, recusando, portanto, a necessidade da crítica social. Segundo eles, então, a democracia se trata do empoderamento de consumidores. E como fazem valer suas crenças simples? Tomando para si os significantes da crítica, para dominá-los. Isso implica tomar a democracia não como um conceito político, mas econômico. "Para eles, o mundo é um grande supermercado. Essa é uma metáfora real, assim como é real que a maioria das pessoas não pode comprar nesse grande supermercado. Elas podem, na verdade, consumir as imagens desse supermercado". A classe média, que ainda pode consumir mais que imagens, usa esse consumo também para segregar. E assim reproduz uma cultura fascista, sustenta Apple, segundo a qual o conhecimento não é real, não é "de tudo", não é do funcionamento das coisas. A força dessas idéias simples aparece na atual política educacional do governo Bush. "Temos um novo currículo nacional na minha nação, que diz que todos éramos iguais no passado. Temos o capitalismo na nossa economia e o comunismo na nossa cultura. Como se sabe, na realidade, os índios, que vieram da Sibéria, só sofreram porque foram congelados e nós, que somos muito solidários, distribuímos cobertores quando eles pegaram sarampo", ironizou Apple. E questionou: "De quem é esse currículo? De quem é esse passado?"

A esperança nos professores do mundo
"Nos EUA reclamamos que não há fundos para a educação. A maior nação não tem isso. Nesta cidade também não tem isso." Mas, observou: "nós estamos na cidade da escola cidadã, do Orçamento Participativo. Então, vocês podem ensinar ao mundo como interromper o neoliberalismo. E eu gostaria de agradecer-lhes por vocês serem os professores do mundo". E, concluiu sua fala com uma simples recomendação: organizar-se coletivamente, não ficar sozinhos, não sucumbir à desagregação das "pacificações" do consumo imagético para, de maneira clara e tão simples como o faz a direita, dizer "não".

Michael Apple é autor dos seguintes livros: Ideologia e Currículo (Brasiliense); Educação e Poder; Trabalho Docente e Textos (Artes Médicas); Conhecimento Oficial (Vozes); Política Cultural e Educação (Cortez) e, também, Educando à Direita.

*. Especial para a Agência Carta Maior