4 de Abril de 2012 - 16h54
“Estou aqui pelo Brasil, pela indústria e pelos
trabalhadores”, disse ao Vermelho, emocionado, José dos Santos (38),
metalúrgico desempregado da Região do ABC, que chegou às 5 horas da
manhã para participar do Grito de Alerta pelo Emprego e Indústria, que
foi realizado nesta quarta-feira (4), no pátio da Assembleia Legislativa
de São Paulo.
De São Paulo, Joanne Mota
O evento, que foi marcado pela execução do Hino Nacional, cantado por
cerca de 90 mil pessoas, é resultado de diversos debates que
formalizaram um “Pacto pelo Desenvolvimento, com geração de Emprego e
Renda” entre as centrais sindicais e o setor produtivo. Dentre as
reivindicações apresentadas durante o ato estão o fortalecimento da
indústria nacional, a garantia e valorização do emprego, a redução dos
juros e o controle do câmbio.
“A montanha pariu um rato”, foi como resumiu Wagner Gomes, presidente da
Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), ao mencionar
o pacote de medidas apresentado pelo governo nesta terça-feira (3). “O
Grito de Alerta pelo Emprego e Indústria é para avisar que os
trabalhadores, bem como o setor produtivo, estão atentos ao nosso maior
problema, que é a atual política macroeconômica - juros, câmbio
flutuante e superávit primário. O pacote apresentado ontem contém uma ou
outra medida positiva, mas está aquem do defendido pelos
trabalhadores”.
Segundo ele, essa mobilização reflete a
luta organizada por medidas que atuem diretamente na questão estrutural.
Medidas que sejam mais do que pontuais, que tenham o Estado como
indutor e se configurem como política de longo prazo. “Precisamos
garantir nossa indústria, pois um país sem indústria está condenado a
ser um país fraco e atrasado. Firmamos um pacto pelo trabalho e pela
indústria, porque queremos um país forte e com bons empregos e
oportunidade para o seu povo”, afirmou.
Wagner explica que o pacote prevê a desoneração da folha de pagamento
para 15 ramos de atividade, com a extinção da contribuição
previdenciária patronal (20% dos salários) e sua substituição por um
imposto sobre o faturamento, com alíquota entre 1 e 2%. Estabelece,
ainda, entre outras coisas, a redução dos juros cobrados pelo BNDES no
Programa de Sustentação dos Investimentos (PSI), cotas de importações
para o setor automotivo e prioridade para a indústria nacional nas
compras governamentais.
O presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva (Paulinho da
Força), reafirmou que as centrais continuarão com as manifestações até
que o governo se pronucie e enfrente a política macroeconômica. “As
medidas até aqui oferecidas não respondem ao que reivindicamos. Esse
ato, que já ocorreu em dois estados, é apenas o começo, os trabalhadores
estão unidos e juntos continuaremos a pressionar o governo. Nossa
próxima parada será a Bahia e lá reafirmaremos mais uma vez nossa
insatisfação com as medidas econômicas implementadas em nosso país”.
Setor produtivo
“Não estamos aqui como empresários ou sindicalistas, estamos aqui como
brasileiros, e como tais lutaremos juntos para garantir o
desenvolvimento do nosso país”, afirmou o presidente da Federação das
Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, ao falar sobre a
realização do Grito de Alerta. Ele acrescentou que “não há como admitir
mais a atual política econômica, pois é escandaloso o processo de
desindustrialização que ocorre no Brasil. Juntos, lutaremos pelas
reformas necessárias e garantiremos o fortalecimento desse setor tão
estratégico para o país”.
Luiz Aubert Neto, presidente da Associação Brasileira da Indústria de
Máquinas e Equipamentos (Abimaq), destacou que alguns passos já foram
dados, especialmente no que se refere à desoneração da folha de
pagamento. No entanto, ele frisou que o governo deveria incidir em dois
pontos essenciais - câmbio e juros -, que nem foram tocados. “Está em
curso um violento processo de desindustrialização, que é impulsionado
pela ausência de competitividade, causada pelos juros, câmbio e
tributos. Desse modo, toda a indústria perde, e quando a indústria
brasileira perde, todo o país perde junto”.
Lutar pelo emprego e lutar por reformas
Nádia Campeão, presidente estadual do Partido Comunista do Brasil
(PCdoB-SP), falou ao Vermelho que essa manifestação reflete um processo
contínuo de mobilizações, que aglomera diversos setores da sociedade em
todo o país. “Fazer um ato como esse no maior centro de produção do país
além de simbólico, demonstra que a sociedade civil assume seu papel na
luta pelo desenvolvimento do país. Lembrando que a defesa da economia
nacional compõe uma luta maior que é a da reformas estruturais, essa
questão da produção, do emprego e da valorização do trabalho se
configura como um dos núcleos mais importantes de mudanças que o Brasil
precisa enfrentar”, agrega.
O secretário Sindical nacional do PCdoB, Nivaldo Santana, que também é
vice-presidente da CTB, afirmou que a unidade das centrais sindicais com
o setor produtivo é importante e abre caminho ao desenvolvimento com
valorização do trabalho.
“Já alcançamos uma vitória, obrigando o governo a anunciar um conjunto
de medidas de estímulo para a indústria. Mas há certo consenso de que as
medidas foram positivas, porém insuficientes. Queremos uma política
industrial mais ampla, que recupere a competitividade da indústria
brasileira e isso quer dizer repensar a atual política macroeconômica”.
Fórum de Mulheres
Raimunda Gomes (Doquinha), secretária da Mulher Trabalhadora da CTB, que
abriu a bateria dos discursos do Grito de Alerta, salientou a forte
participação das mulheres nesta importante manifestação. “A luta das
mulheres não perdeu de vista setores como o da indústria. Estamos aqui
hoje por entender a importância da luta pelo emprego e por saber que o
processo de desindustrialização em curso gera desemprego, e quando isso
acontece as mulheres são as primeiras a perder seus postos de trabalho”.
Ele informou que no último dia 29 o Fórum de Mulheres lançou em
Brasília, durante ato das mulheres no Senado Federal, uma moção de apoio
pela defesa da indústria nacional, contra a desindustrialização e pela
unicidade sindical.
Agenda
Wagner Gomes informou que a mobilização da classe trabalhadora
prosseguirá com outros atos pelo país, e já estão agendados para os
próximos dias a realização em Salvador, Manaus, Fortaleza, Belo
Horizonte e Brasília, que encerra as atividades.